Sou uma pessoa um pouco ligada e desprendida com números: em poucas palavras, acho que não há cifra que não possa ser alcançável e por isso não me preoucupo com eles, mas, ainda sim, sou muito preso ao valor cobrado por tudo.
A todo segundo quero fazer uma análise do que está sendo cobrado. E bom, se tem algo que há a sensação de ter fugido da realidade do restante do mercado mundial é o preço dos automóveis no Brasil.
São raros os modelos com preços que parecem ser justos. E não há distinções: tanto os importados quanto os produzidos aqui subiram numa escala muito superior à do mercado internacional. Se o Mille custava o equivalente a 3.500 dólares a cinco anos atrás, hoje ele vale três vezes mais. Para os importados a escala é menor. Eles só estão custando o dobro.
Hoje li a notícia de que a Audi acabou de colocar à venda no Brasil o RS4 por nada mais, nada menos, do que aproximadamente meio milhão de reais. Ainda que seja uma versão esportiva, com várias distinções, ainda é um Audi médio, convenhamos. Nunca na minha vida eu pensei que um carro dessa série custaria tanto. O que não diminui o valor do carro, que é, obviamente espetacular. Mas deixa claro que parece um tanto absurdo perante os preços cobrados há uma década atrás. Em 2001, quando o dólar mantinha uma cotação próxima a atual, os importados custavam a metade do que custam hoje. E os tributos se mantiveram iguais, diga-se de passagem.
Mas, afinal, o que justifica tais aumentos? Não se sabe ao certo. Além da clara vantagem financeira que há pela opção de se cobrar um valor maior, há um fator cultural que explica o fato: cultura inflacionária no mercado de carros.
Ainda hoje um amigo comentou, com orgulho, que seus carros só perderam “3 mil” reais em quase 6 anos de uso. Um bom investimento, segundo ele. Mas, quando questionado se iria trocar: ele disse que teria que dar um bom valor na troca, já que, afinal, um modelo equivalente custa 20 mil reais a mais! Ou seja, com essa estratégia, as fábricas aumentam o lucro e a maior parte dos consumidores tem a ilusão de que seu bem não depreciou. O carro do meu amigo perdeu, sim, cerca de 50% do valor. A depreciação é em relação ao bem novo, e não em relação ao valor pago.
Quem nunca assistiu ou leu algum anúncio “compre antes do aumento” sem questionar, por que afinal, haveria motivos de aumento? Se há uma década atrás essas notícias ganhavam os noticiários, com exposição dos motivos das fábricas com o porquê disto, hoje elas, se muito, correm somente dentre a imprensa especializada. Quando as fábricas anunciam, é claro.
Mas afinal, o que aconselhamos? Leitor, ganhe mais dinheiro. Afinal, carro é uma necessidade básica e só com um crescimento de uma concorrência real que os fabricantes irão baixar seus preços. Ah! Não deixem de sonhar. Não tirem o pôster da RS4 de seus quartos. Eu não tirarei.
Por Guilherme Lopes

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